CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Snoopy

por: Cléo Araújo

21 OUT

2013

Eles preferem o telhado ao interior da casinha, voaram na primeira guerra mundial e compreendem um pouco de francês: esses são os snoopies.

Os snoopies, para quem não conhece, são bichos com cara de coitadinhos e fedorentos que dormem na nossa cama, lambem a nossa cara e babam no nosso chão. Bichos que vivem com o exclusivo propósito de existir para nós. Por uma coçada na barriga, um pote de água, ração seca, uns Biscrocks e um cobertorzinho, a conta de amor está acertada.

Mas nem tudo isso impede que, vez ou outra, um snoopy, com toda a sua snoopysse, se transforme em pequena e gorducha cobaia tricolor de olhos doces, tristes e mutilados.

Quando alguém conta e prova que judiaram de um snoopy, não importa que esse alguém seja Woodstock, um Black Block, um integrante da PETA, um aborígene neozelandês ou um membro da Academia Brasileira de Letras: é, sempre, e de qualquer jeito – como diz uma amiga e para usar uma citação canina – “mais triste do que cachorro cagando na chuva”. Pouca diferença faz o que aconteceu no in-between. Se quebraram tudo, se houve quem se aproveitasse da bagunça para fazer mais arruaça (não é sempre
assim?), se chamaram a Polícia, o Michael Moore ou o Arnaldo César Coelho, quando o resultado da história é sempre o mesmo: um monte de snoopy se ferrando.

Eu, assim como você, uso cremes. Shampoos. Loções e bálsamos. Uso perfumes, gloss, óleos. Uso esmalte e removedor de esmalte. Daí o dilema moral, o desconforto. Me ensaboo com minha própria hipocrisia ignorante e condescendente enquanto choro por um snoopy. Será que uma ruga a menos na minha testa vale um snoopy? Será que quero esse bode cármico nos meus ombros em nome de um novo protetor solar? Quantos snoopies, lassies, benjis, marleys, remys, garfields, seabiscuits, willies, richard parks, flippers, nemos, elzas e quantos anônimos entre leões, girafas, camarões, elefantes, crocodilos, porcos,
macacos, bois, hipopótamos e lambaris terão de nascer e morrer em nome de… de que mesmo?

Cobaias existiram e existirão. Mas por Noé, há de haver gente humana pesquisando métodos e técnicas alternativas ao sacrifício de snoopies (latu sensu). Há de haver novas formas de consumo, que mantenham ao mesmo tempo snoopies e uma economia viva e saudável. E também há de haver uma forma de consumir criticamente, de ter compaixão, de ser gentil com o que respira e de ser justo e equilibrado sem ser reacionário e julgador. Medidas extremas e imediatas são utopia. Pessoas comem carne. Snoopies comem carne. Mas nada nos impede de pelo menos refletir a cada vez que levarmos um garfo à boca ou um pincel de blush às
bochechas.

“Filosofia atrapalhada”? Difícil engolir. Para os snoopies, pouca diferença faz que seu destino esteja legalmente previsto e regulamentado, agora que vagam sem rumo à procura de um Charlie Brown. Nós, seres ‘pensantes’, ficamos aqui. Ladramos, quando, talvez, tempo fosse de morder.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.