CLÉU ARAÚJO
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Sob céu azul

por: Cléo Araújo

23 JUL

2007

Ela acordou naquela manhã nublada e fria era pouco mais de cinco da manhã. Não gostava muito de acordar cedo. Tanto que preferia fazer academia no final da tarde a enfrentar a esteira logo pela manhã. Mas, desde que começara no trabalho novo, toda semana tinha o dia de sair da cama com as galinhas. E como não havia galinhas, acordava com o despertador mesmo, e antes de começar “Bom Dia São Paulo”. Em dias de inverno, ainda era noite lá fora.

Não fumava e se protegia do sol – tinha medo de manchar a pele e ter uma coisa mais feia (família toda de pele branquinha).

Bebia pouco, no máximo, uma caipirosca de lima da pérsia ou uma tacinha de vinho. Alimentava-se bem, não gostava de porcarias. Nesses dias de inverno, gostava de sopa no pão.

Sei que naquela manhã chuvosa tinha que estar cedinho no aeroporto, mesmo sem saber se o vôo sairia ou não na hora marcada. Sempre um grande mistério.

Pegou um táxi e seguiu. Só foi tomar um café e comer um pão de queijo já no saguão do aeroporto.

Logo foi para o seu portão de embarque e o vôo, por um milagre qualquer, saiu na hora certa! Sorte.

Chegou cedo no destino, e lá, o mesmo céu cinzento. Fazia frio. Deu-se conta de que fazia uns quatro dias, pelo menos, que não via o céu, senão carregado de nuvens escuras. Não tomava sol, tudo bem, mas adorava um céu azul e um sol brilhando.

Fez umas duas reuniões ainda na parte da manhã. Depois, saiu com alguns colegas para almoçar em um restaurante do centro. Comeu salmão com de creme de espinafre. Tomou uma água mineral com gelo e limão. Saboreou uma salada de fruta de sobremesa. Precisou de um fio dental. Enquanto escovava os dentes, notou que também precisava pintar a raiz do cabelo. Melhor que fosse já no próximo final de semana. Passou a mão no celular e resolveu marcar logo um horário para o sábado no cabeleireiro, senão ia acabar se esquecendo.

À tarde, a chuva continuava. E também as reuniões. Gostava dos assuntos novos, mas depois de quatro horas ouvindo e falando praticamente a mesma coisa, sentia sono. Pensou na sua cama, que havia ficado desarrumada naquela manhã. Lembrou-se que tinha esquecido de devolver o DVD de “o Ilusionista” na locadora! Puts! Iria fazê-lo assim que chegasse em casa, à noite, para não ter que pagar aquela multa ridiculamente abusiva.

Num intervalo entre as reuniões da tarde, acabou lascando a unha enquanto abria uma garrafinha de água. Precisou de uma lixa, vasculhou sua bolsa, mas não tinha nenhuma. Arrancou com o dente mesmo. Doeu.

Depois de concluído o dia de exaustivas reuniões, resolveu que seria melhor já voltar para o aeroporto. Ainda faltava um tempo para o seu vôo, mas assim faria uma horinha por lá, compraria uma revista, faria coisas de aeroporto, enfim.

Foi. Ao chegar ao salão de check in, percebeu que em quinze minutinhos sairia um outro vôo para São Paulo, pelo menos umas duas horas antes do seu. Correu até o balcão para tentar embarcar, chegar mais cedo em casa, perfeito. Pagou um pouco a mais, mas conseguiu. Sorte.

Não deu tempo de avisar ninguém que estava voltando antes, mas como em uma hora e meia, mais ou menos, estaria em casa, calculou que chegaria antes mesmo do seu vôo verdadeiro ter decolado.

Sentou-se numa poltrona no corredor. E, mais uma vez, o vôo saiu no horário correto. Ao seu lado, uma moça e um bebê. Gostava de voar perto de bebês. Por alguma razão, sentia-se mais segura. Aviões com bebês não pegavam nem turbulência.

Durante o vôo, tomou suco de laranja e assistiu a um episódio daquelas “pegadinhas” ingênuas. Seus sapatos estavam machucando. Ela não via a hora de chegar em casa para poder jogá-los longe, conseguir uma lixa de unha, dar um jeito naquele polegar dolorido, devolver o DVD e sacar dinheiro em algum caixa eletrônico. É que quarta-feira era dia de visita da faxineira.

Sentiu um cheirinho de comida vindo dos forninhos do avião, e ficou com vontade de comer torta de frango. Pensou em pedir para sua mãe preparar uma para o almoço de domingo. Estava com boca para torta de frango. O rapaz do outro lado do corredor tomava uma cerveja. E ela pensou em marcar um happy hour com uma amiga assim que desembarcasse, já para a noite seguinte. Fazia ‘anos’ que não se viam, precisavam colocar muitos assuntos em dia, desde o ‘novo moço’ que havia aparecido em sua vida até que estava pensando em se matricular em um curso de dança do ventre. Mas, naquele dia, não, não queria sair. Embora estivesse voltando mais cedo para casa, estava cansada, queria só chegar, tomar um banho, por os pés para cima e relaxar. Quem sabe, dormindo mais cedo, daria até para andar de patins no parque na manhã seguinte?

Percebeu, então, que já estavam começando a descer. Sentiu sono. Fechou os olhos. E cochilou.

De repente, sentiu-se leve, como se estivesse dormido na sua cama quentinha. Sentiu uma coisa boa. Uma felicidade maior do que o mundo. E finalmente o sol. E o céu azul.

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