CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Sobre cápsulas e futuro

por: Cléo Araújo

11 SET

2008

Minha amiga me contou uma história.

Foi durante o almoço, há umas semanas, dias antes do ENEM.

Ela e o filho estavam de mudança. Encaixotaram a casa toda, levaram as caixas para o apartamento novo (e que se encontrava em galopante reforma) e foram passar uns dias na casa da mãe (avó), só enquanto as paredes secavam e as lâmpadas eram colocadas.

Como minha amiga é uma moça precavida, avisou o filho – uma coisa jovem de 17 anos: “veja bem, menino, guarde as suas coisas principais em uma sacolinha separada. Os documentos, especialmente, para gente poder achar rapidamente caso haja uma emergência”.

E assim o gajo fez. Guardou suas coisas numa sacolinha e deixou lá, bem bonitinha.

Estavam sossegados, de hóspedes na casa de vovó quando, de repente, se lembraram: “Puts! O ENEM!” – e o estudante de 17 anos tinha que fazer o ENEM, oras bolas. E para fazer a prova o bichinho precisava do RG. Original. “Rarrá!” – mamãe precavida logo se lembrou. “Bendita sacolinha!”. E lá foi ela para o local onde a tal descansava tranqüila, esperando pelas tais emergências.

Mas, surpresa dos desavisados que confiam demais em seus briefings… Qual não foi a sua surpresa quando abriu a bendita!

Incensos, um HQ do Che Guevara, um CD Player (e ele tem um MP3 Player), uma bolinha de tênis (e ele não joga tênis), fones de ouvido, vinte e dois bonequinhos de jogar futebol, duas traves e uma bolinha.

Nenhum RG, não senhor.

Sem grandes explicações por parte do dono da sacolinha, o resultado prático da história foi que ele teve que correr para um Poupatempo. Mas o resultado psicológico, e esse sim era o que não me saía da cabeça, era o verdadeiro sentido por trás (ou dentro) daquela sacolinha.

Sem muitos porquês, sem muitas reflexões, aqueles eram os itens mais importantes para ele. E quem haveria de discutir? A bolinha de tênis certamente tinha um significado muito maior do que um pedaço de papel plastificado, com uma impressão digital e uma foto 3 x 4.

Aquela não era a só um sacolinha para emergências. Era a própria cápsula do futuro de Gabriel.

A cápsula do futuro, para quem desconhece o conceito, é uma cápsula (caixa, lata, envelope ou, como vimos, sacolinha) onde alguém guarda itens estimados num lugar bem guardado, bem fechado, de preferência até enterrada perto de uma árvore para que alguém, no futuro, a encontre e vislumbre outro tempo, outra época, outra história, a sua história.

Ela já ajudou muita gente a escrever roteiros para o cinema. Amelie Poulain encontrou uma em seu apartamento parisiense. Britney Spears enterrou uma com suas amigas em um filme B qualquer. Existe uma voando pelo espaço sideral – uma cápsula do futuro de toda a humanidade – que, dizem, leva dentro dela fotos de mulheres, de homens, da Muralha da China, urânio (para permitir a datação da cápsula) e composições clássicas de Bach e Mozart.

Pensando na sacolinha do Gabriel, nos soldadinhos de chumbo encontrados por Amelie e na Ave Maria de Bach sendo executada daqui a 80 mil anos em algum planeta habitado por lêndeas fosforescentes gigantes em um planeta da constelação de Libra, me peguei olhando em volta, procurando os objetos que comporiam a minha cápsula do futuro.

Considerando que ela não viajaria pelas galáxias na Voyager e que o que de fato tem valor para o mundo estaria muito bem catalogado em wikipedias e bibliotecas, creio que não precisaria me preocupar em deixar na minha cápsula os poemas de Neruda, os tangos de Gardel ou as dez temporadas de Friends, por exemplo. Seriam coisas minhas, só minhas, coisas como o quite de mini-futebol do Gabriel.

Talvez o meu pingente de golfinho, ou o envelope com as mechas de cabelo de quando eu era criança (daria até para fazer um clone de mim, se alguém lá do futuro quisesse, é claro). Quem sabe uma mini-garrafinha de vinho, o primeiro vídeo gravado pelo meu pai na sua Panasonic (era o Natal de 1986), uma foto de Paúba, uma receita de bolo de goiabada, com pingos de leite condensado marcando a folha. Poderia reservar também um espaço para uma orquídea seca e um raminho de manjericão miúdo. Acho que deixaria lá também um CD compilado com as minhas músicas favoritas, só 21 delas, e um mini micro cachorrinho de pelúcia que guardo dentro da minha carteira.

Poderia guardá-la, então, num alçapão esquisito que encontrei recentemente debaixo da escada da casa onde moro há quase 10 anos. Ou enterrada perto de um flamboyant na estrada de terra que leva ao sítio dos meus pais.

E ela ficaria lá, para os casos de emergência.

E, como o Gabriel, sábio Gabriel, seria a ela que eu recorreria – e não ao meu passaporte ou ao meu título de eleitor – toda vez que surgisse diante de mim uma prova pela qual eu tivesse que passar.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.