CLÉU ARAÚJO
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Socorro, não estou sentindo nada

por: Cléo Araújo

17 OUT

2006

Peço licença a Arnaldo Antunes. Peço desculpas aos apaixonados. Camões, por favor, cubra seus ouvidos.

É que eu, logo eu, vim falar de amor.

Claro que eu amo. Amo sim. Ah, amo tanta coisa, tanta gente. O foda é o tal do amor romântico, aquele um, da cumplicidade, do companheirismo, do ‘até que a morte dê cabo da coisa toda’… Esse, cadê? E olha que eu amo o amor romântico também. Mas, cadê? Sumiu! Se fué.

Uns dizem que eu não sei amar o que (ou quem?) me ama. Ou, para ser mais pé no chão, dizem que eu não sei amar o que (ou quem?) gosta de mim um pouquinho acima do modo standard. Outros acham que eu já usei minha cota. Amei muito e agora, pronto, acabou… Mentira, ninguém acha isso, mas poderia ser uma hipótese, uma resposta para essa sensação de que estou vivendo com deficiência de amor crônica.

O amor, então, é só latente, coitado, mingua ainda mais, vira um “Grinch”, um fantasma de um amor passado, uma coisa, assim, que quase foi. É um ente seqüestrado. Está esperando pelo resgate que há de vir, sei lá de onde, sei lá por quem. Mas há de vir. Deve estar quase chegando. Alguém consegue ver?

Alguns olham para mim com ares de piedade, “coitadinha, ela não ama”. E eu mesma concordo às vezes, mas me puno, me castigo pela minha própria arrogância amorosa, essa que me faz achar que para mim tudo é pouco, que ninguém é especial, que nada merece o meu amor. Até que ache uma coisa bem torta, com cara de que vai dar errado, e me enfie de cabeça. E aí eu amo. E aí é o começo do fim.

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