CLÉU ARAÚJO
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“Straight to Hell!”

por: Cléo Araújo

08 FEV

2008

Finalmente, mas bem nos finalmentes mesmo, acho que pode ser que eu consiga tirar uma passagem grátis para viajar.

Só que não graças ao Smiles, muito menos ao Fidelidade, ajuda zero do Flying Blue.

Quem anda explodindo de milhas é outro cartãozinho, que se fosse de alguma companhia aérea estaria ligado a algum programa de recompensa de nome do tipo Cries, Infidelidade ou Flying Red.

Não que eu tenha pressa de fazer essa viagem. Não, não tenho, não. Antes ainda pretendo conhecer a África do Sul e voltar para Paris. Mas como segundo o cristianismo vigente esse tipo de coisa não expira (ainda mais se somado a isso o fato de que ando me confessando bem pouco), digamos que para acumular o suficiente para chegar a esse destino (com passagem só de ida, isso é fato) eu ainda tenho tempo. E mil idéias de como acumular pontos.

O programa de milhagem dessas linhas aéreas satânicas funciona que é uma beleza.

Minha capacidade de ser má está cada vez mais afiada. E a habilidade do arrependimento cada vez mais debilitada. Por isso o cartão bombando de pontos.

Isso não me assusta. Não tenho medo desses castigos, não tenho medo do capeta, acho que bateria um papinho bem divertido com ele enquanto estivéssemos os dois saboreando uma bela taça de Romanée Conti (ou você acha que existe alguém no mundo tomando esse vinho que vai padecer no paraíso cercado de anjinhos castos e músicas de harpa?).

Eu sei que deve valer a pena computar todas as minhas maldades porque alguém há de me pedir isso lá no dia do juízo final. E como o Céu deve estar vazio, tenho quase certeza de que a equipe de Head Hunter de God está maluca atualizando nossos currículos de bondades. Não preciso me preocupar em guardar isso. Mas o Diabão, com a super lotação de seus caldeirões e funcionários exaustos de tanto chicotear a moçada, esse não. Esse, não fosse um programa de milhagem, perderia o controle. Teria gente entrando lá sem jamais ter se associado.

Sei que nessa banca vão ficar lá, querendo me pressionar, querendo contar todas as vezes que eu ajudei uma velinha a atravessar a rua, todas as vezes que eu chorei com um filhotinho de cachorro, todas as vezes que eu rezei o Pai Nosso e mais aquelas outras vezes em que eu (Deus me livre) me arrependi. Mas o Demo vai ganhar a disputa, graças ao meu extrato de milhas, que ele apresentará a um auditor neutro (alguém da Onu ou do PSDB) na tentativa de acabar com a discussão. O inferno está cheio, mas sempre cabe mais um. Mais do que ajudar velhinhas a atravessar a rua ele sabe que eu tenho é medo delas, especialmente das francesas. Ele vai trazer à mesa as inúmeras vezes em que apontei defeitos para rir com amigos tão sócios do clube das milhas infernais quanto eu. Gente que ou vai estar lá nas profundezas me esperando com uma festa ou que vai chegar dali a pouquinho, também com destino certo e sem escalas.

Segredos revelados fora de hora também me valem pontos. Outro dia acumulei o suficiente para chegar pelo menos no 1º pedágio rumo ao inferno (que tem 3.890.456 pedágios – nem tudo são flores para se chegar lá). Contei que um amigo, que pedira segredo, tinha um bolachão do New Kids on The Block que trancava a chave quando era criança (obviamente cagando nas calças de ser descoberto pelos amigos). Mas desse grupo – tanto do meu amigo do disco do NKOTB quanto dos seus amigos que zuavam todos aqueles que dançavam Step by Step, quem você acha que vai pro Céu? Ninguém. Mas eu, ao revelar um segredo dessa monta a terceiros, milhei. Milhei sim. Tá lá o pontinho no meu extrato.

Pelos apelidos maldosos com que batizei pessoas de bem (de bem naquelas, né…), eu ganho uns 10.000 pontos. Por ser intolerante com gente burra, uns 30.000.

Aquela edição com fotos infames daquela “amiga” (alvo preferido das maldades)? Bom, aquilo sozinho já me valeria uma passagem pelo menos até a Barca do Inferno. E todo mundo que riu da montagem pode vir, pode subir a bordo. Ou vocês acham que o Rapaz lá debaixo faz diferença entre a gente? Tsc tsc tsc, o negócio dele é manter o espaço populoso, minha gente. Aqui se faz, lá se paga! Go straight to Hell, boys.

Sei que vou juntando. Um pouco aqui, outro ali, e como não acredito em destino depois do fim, faço isso como quem não tem nada a perder.

Se no balanço final o saldo positivo da milhas infernais não for neutralizado, é lá com a galera do Gil Vicente que eu vou ficar.

Com uma lança na bunda. Mas sem um pingo de arrependimento no corpo. Que queima, enquanto espera a próxima ronda do Chefe.

E lá vem ele, um Al Pacino em seus sapatos Prada.

Ele coloca The Clash e sai enrabando o pessoal todo. Sim… Ninguém conta com essa quando chega lá. Mas é isso que rola. Só para mostrar para aquele bando de gente ruim que a vida no inferno parece boa, mas não é nada fácil para a grande maioria.

Chegar lá deve dar aquela sensação que dá em todo mundo que chega em algum lugar com uma passagem emitida com milhas. Dá aquela sensação de que daria para ter ido para algum lugar melhorzinho.

E vem aquela certeza…

A de que viagem de graça não existe.

Nem aqui nem no Inferno.

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