CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

The time of my life

por: Cléo Araújo

23 MAI

2007

Eu acordei, e simplesmente tinha que pintar as portas e batentes da minha casa.

Culpa das coisas brancas, que amarelam com o tempo. Sou uma pessoa feliz, que tem só esse tipo de preocupação em sábados pela manhã.

Fiz um café e mergulhei no mundo da Suvinil e da Coral. Minhas prioridades nesse dia eram, então, futilidades do meu pequenino lar.

Depois de estudar o círculo cromático e descobrir que azul + amarelo + vermelho dá cinza neutro, me peguei pensando em trocar minha geladeira, meu fogão, minha batedeira e minha sanduicheira – todos levemente amarelados também. Isso me levou a outros sites, inúmeros e infinitos sites. Cheguei então a esse que vendia desde arpão portátil para pesca submarina até cadeirinha de bebê para carro com estampa de zebra. Bastaram dois cliques e eu já tinha adquirido coisas: o DVD de “Dirty Dancing” e um curso de francês. Sou uma pessoa influenciável, com esse tipo de impulsividade. Cabiam melhor no meu bolso do que uma geladeira de duas portas com dispositivo para gelo moído ou um fogão de cinco bocas cor de abóbora, pelo qual me a-p-a-i-x-o-n-e-i.

Por volta das cinco da tarde, as coisas velozes chegaram.

Chovia, e estava frio. A programação não conseguiria ser outra, a não ser sofá, Cabernet e “Dirty Dancing”. Curso de francês? Domingo.

Ajeitei-me, ajeitei minha amiga cachorra, ajeitei minha amiga taça de vinho.

E o filme começou…

“The night we met I knew I… Need you so…”

Déjà vu. Se é que isso é o que eu acho que isso seja sem nunca ter estudado francês.

Lugar por demais saudoso: eu estava no meu universo paralelo, e a família de “Baby” chegava ao hotel fazenda nas montanhas.

Como eu vivia bem ali. Mundo dentro da minha cabeça, mais divertido, confortável e coerente do que o mundo real fora dela. Passei muito tempo lá. Sorte… Os níveis dessa fecundíssima imaginação não chegaram às raias da neurose. Não cheguei e me tornar uma pré-adolescente perturbada.

“Baby”, escondida atrás de uma porta, via Johnny pela primeira vez, quando este chegava para uma reunião do staff do hotel.

O universo paralelo… Existia, basicamente, para sublimação das paixões imaginárias. E eu sempre as tive, tive tantas e tive sempre. E sempre fui tão diferente do meu grupo de amigas ‘pés-no-chão’ quando se tratava disso, com uma exceção ou outra.

Tudo começou com Indiana Jones, aos nove anos. Precoce. Eu acreditava: haveria, no futuro, um “Indiana” de verdade para cada uma de nós que o amávamos (não éramos poucas). Um homem perfeito com quem nos casaríamos e com quem moraríamos em uma casa mobiliada num estilo afro-indiano, provavelmente em Nova Delhi ou no Cairo.

A fase era homem com cara de homem, e de preferência o mesmo homem. Então foi a vez de Han Solo. Eu sempre a Princesa Lea da brincadeira, garantia assim a contracena com o Han imaginário. Meses sendo Princesa Lea. E eu detestava aquela mulher! Não sobravam muitas outras personagens femininas para as outras amigas interpretarem. Ninguém queria ser o Chubaca. Acabávamos emprestando personagens femininas de outros filmes. Billy Jean, Christiane F., Dafne, Kate Mahoney. Eu, romântica, só me importava em terminar com o Han. Era seu rosto que eu via quando beijava o peito da minha mão.

“Baby” substituía Penny na apresentação de mambo do hotel vizinho… E já queria (muito) dar para Johnny.

“Hungry eyes…. One look at you and I can’t disguise I’ve got…”

O carinha de “A Lagoa Azul”, Ferris Buller, Daniel San, Nô, Robbie Lowe, Dylan, Marty McFly, Brandon, Rico e Rei, Donnie Wahlberg… E Johnny! Patrick Swayze! Patrick Swayze e toda sua ginga! Patrick Sywayze e seu super maxilar. Patrick Swayze e seu cabelo anos 1950. Patrick Swayze e seus braços de Patrick Swayze. Ah, nossos “padedês”… Ele era tão forte, me erguia lá no alto, me segurava lá no alto, por causa dele eu adorava Righteous Brothers, por causa dele eu quase morri de chorar em “Ghost”. Que atire a primeira sapatilha furada a menina (do tipo que dançava ballet ou jazz nos anos 1980) ou o menino titubeante que não se derreteu com aquele bailarino-macho dançando daquele jeito impudico e que não tenha criado um universo paralelo só para ele!

Um dia, acho que foi quando brinquei de “salada de fruta” pela primeira vez, aconteceu: eu deixei o universo paralelo. Cairia Platão, enfim, para um segundo plano? Dei-me conta de que as pessoas tinham boca, e que eu não dependeria para sempre do peito da minha mão.

Ah, claro que não foi assim tão simples. As coisas se misturaram: o primeiro selinho foi no vizinho que era a “cara” do Patrick Swayze; o primeiro beijo (de língua) foi no namoradinho, “cara” de Johnny Depp (momento de muita surpresa, já que Indi e Han não me beijavam daquele jeito, quase afoito); apaixonei-me pelo menino mais lindo da cidade, sósia de Donnie Walhberg. Uma boba, uma boba viciada em Platão. Era só o mesmo mundo paralelo, fantasiado de real.

E o tempo passou. E eu acordei com quase trinta, pensando nas coisas amareladas por culpa dele. E todos esses amores do passado estão no meu colo, me trazendo ao mesmo tempo aquela sensação que todo mundo esconde por vergonha – o saudosismo do passado – e uma certa condição de vida besta, de nostalgia do mundo paralelo que eu deixe para trás.

Agora “Baby” já era Frances Houseman, e o letreiro subia.

“Oh I, had, the time of my life…”

E eu quase quero sair dançando ao som da música. Não sou mais baby, aliás, faz tempo que sou Frances. Mas não se engane, moça romanesca, não foi nessa noite que você voltou ao seu universo paralelo. Teve sempre um pezinho lá e continua tão lírica e continuamente dependente dessas coisas fantásticas – escrava das memórias boas, sejam elas reais ou inventadas – quanto quando aos onze anos.

Talvez os níveis dessa fecundíssima imaginação tenham finalmente chegado às raias da neurose.

Pois “Dirty Dancing” termina.

E Indiana que me ache!

Venha e bata na minha porta amarelada.

Para avisar que chegou.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.