CLÉU ARAÚJO
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Truco, safado!

por: Cléo Araújo

22 FEV

2008

Eu confesso que fazia sim um pouco de questão de ser a Senhorita Rosa.

E se alguém gritasse que seria ela antes de mim, ficava com a minha segunda opção: Dona Branca.

Mas eu costumava mesmo ganhar é quando jogava com o discreto Professor Black. Ele, que começava sempre ali, bem escondidinho atrás da textura de couro daquele escritório sombrio.

Foram dezenas de férias em volta do tabuleiro do Detetive.

Ele nos acompanhava onde quer que fôssemos – praia, campo, casa da amiga, casa da avó, casa da outra avó. Era um verdadeiro companheiro para toda hora, em especial para os dias de chuva em Paúba, naquelas tardes regadas à Toddynho e panetone.

Com o tempo, o envelopinho pardo com o carimbo “Confidencial” – que guardava todas as informações sobre o tal crime cometido na mansão (quem, em que cômodo e com que arma morreu o Sr. Fulano de Tal – aquele de quem nunca ninguém sabia o nome) acabou tendo que ser substituído por um simples, dos Correios mesmo, encapado em silver tape para que não conseguíssemos ver através do papel. A Dona Violeta, coitada, desapareceu. Foi substituída por um daqueles pinos mais cabeçudos da Grow. O cachorro engoliu o cano, que virou um clipe de papel. Mas acho que só paramos mesmo de jogar quando já não havia mais nenhuma arma original (um pente da Barbie fazia as vezes da chave inglesa e um barbante as da corda). Foi também nessa mesma época que o chão do salão de festas começou a puir.

Eu não sei você, mas eu sinto muita saudade dessas coisas lúdicas da infância (que se arrastaram até onde puderam na adolescência). Nada me dava mais alegria do que um par de dadinhos rolando sobre um tabuleiro (seis, seis, seis!)

O buracão do ludo do Pato Donald (que fazia a gente ir três fileiras para trás), os lá lá lás do Desafino, os desenhos toscos que tentavam ilustrar os títulos de filmes antigos que apareciam nos cartões do Imagem e Ação, as palavras desconhecidas  do Academia (“capitel”: câmara onde se escondiam jóias no Egito Antigo) e as perguntas capciosas do Master – a palavra abacaxi vinha, afinal, do latim ananás.

Mas já havia, também, o prazer lúdico no botão e na manivela de um joystick (naquela época, para mim, aquilo era simplesmente um controle com fio). Os escorpiões do Pitfall, os postos de combustível do River Raid, os calos no dedo de tanto acelerar no enduro e a musiquinha de abertura do MSX. Tudo isso é parte da minha vida.

Pense bem: eu comprei mansões na Rua Augusta e apartamentos na Av. Atlântica. Fiquei milionária no Jogo da Vida e descobri que as docas eram esse lugar onde crimes misteriosos costumavam acontecer. Eu conquistei Butão, fechei uma canastra real, ‘prendi, em nome da lei’, tive muitas caras no Cara a Cara, me envergonhei com perguntas do Perfil, me matei de decorar cidades com ‘Q’ para sair vencedora no Stop e jamais me desculpei por não ter adivinhado um personagem oculto pensando pela minha irmã que, depois de semanas, teve de revelá-lo diante da minha desistência (sim, uma vez eu desisti e ela havia pensando no Beto Carrero).

Eu animei a monotonia de uma aula de geografia com uma partida de corrida das canetas. Eu usei cadeiras para segurar o elástico o mais alto possível e assim quebrar meu próprio recorde. Eu senti a emoção única e o suor frio nas mãos antes de gritar, pela primeira vez na minha vida: “truuuuuuuuuuco, safado!”. Difícil emoção posterior que tenha se comparado a essa.

Ah, eu não sei o que vocês acham…

Mas eu acho que eu era bem melhor.

Acho que quando os jogos começaram a perder a vez para os “joguinhos” tudo começou a perder o sentido. Foi aí que eu comecei a preferir a segurança do pique. Passei a ficar ali, bem quietinha, guardando caixão.

Não faço mais questão de ser a Senhorita Rosa. Na vida adulta, aliás, eu acabei assumindo quase que por completo o meu lado Professor Black. Fico ali, atrás da penumbra do escritório, fumando meu cachimbo imaginário, enquanto as donas brancas se bronzeiam e se casam com os senhores marinhos.

Eu fico aqui porque, assim como numa partida de Buraco, eu aprendi que é melhor garantir uns pontos comprando a mesa do que se arriscar a comprar uma carta inútil no monte. Nem que isso me custe o morto.

Eu fico aqui, enfim, porque parece que ninguém mais sabe brincar do meu jeito. E é sempre muito chato ter que explicar tudo quando alguém entra na brincadeira pela primeira vez.

Eu sinto preguiça. E justo hoje quando, teoricamente, eu deveria saber exatamente o que fazer…

Primeiro eu garantiria a primeira rodada com um três ou um pica-fumo. Aí, faria a cama para a dupla adversária na segunda: com um Ás – que desceria das minhas mãos com aquele ar de ‘última possibilidade’, eu os forçaria a gastar o sete-copa.  E aí, é claro, eu gritaria de novo…

“Truuuuuco, safado!”

E derrubaria o zap.

Marque aí.

São três tentos para mim.

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