CLÉU ARAÚJO
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Turista pé frio

por: Cléo Araújo

14 JUL

2009

Chegamos do México no dia 28 de abril.


Depois de mais de um ano sem tirar férias, finalmente havíamos conseguido nos programar para viajar e não fazer nada. Não queríamos ver igreja, museu, andar feito camelo, nada disso. Queríamos sombra, tequila e água fresca.


Escolhemos Cancun como nosso destino – mais precisamente um resort cinco estrelas divino e maravilhoso.


Sei que comi lagosta na brasa, andei de jet ski, tomei champagne com morangos e nunca, simplesmente nunca fiquei tão bronzeada. Fui para Playa Del Carmen, Cozumel, Chichen Itzá e depois de tudo isso, ainda tínhamos cinco dias de viagem pelo México. Voltaríamos pela capital, onde o voo faria uma conexão e onde passaríamos duas noites conhecendo as curiosidades locais.


Dois dias antes do nosso embarque para Cidade do México, uma tal de uma gripe desenvolvida em porcos começou a ganhar espaço na CNN International. Não acompanhei muito o frisson, conheço bem a CNN e seus alarmismos, mas quando os familiares começaram a me ligar perguntando se eu já tinha comprado a minha máscara, achei estranho. Tinha outro brasileiro no hotel, com quem conversamos entre uma Corona e outra. Ele não fazia ideia do que a gente estava falando. Gripe? Suína? Máscara? Necas!


Aí, soubemos que a Cidade do México estava fechada, praticamente em quarentena, e que o presidente havia mandado fechar escolas, museus, restaurantes e bares. Pensamos que talvez fosse prudente antecipar a nossa volta. Conseguimos uma passagem fazendo uma escala no Panamá. Só que ainda tivemos mais dois dias em Cancun. Foi difícil comer lagosta e tomar champagne com o mesmo relax, mas a gente seguiu. Até porque, por lá, tudo parecia estar na mais santa paz. Nem o concierge do hotel cinco estrelas tinha ouvido falar da tal da Influenza.


Ao chegarmos ao aeroporto de Cancun, vimos umas pessoas de máscaras distribuindo uns panfletos que explicavam o que fazer para evitar pegar a gripe letal. Ali sentimos pela primeira vez um medinho e certa paranóia hipocondríaca. As orientações nos pareceram muito básicas e padrão para quem tem o mínimo de educação. Afinal, lavar as mãos, tossir com a mão na frente da boca e não cuspir nas pessoas são praticamente default da vida em sociedade.


Lá fomos nós, para a cápsula de vírus que é um avião. Olhei em volta para ver se identificava algum passageiro mais catarrento. Como não havia, vestimos nossas máscaras e decolamos, em direção ao Panamá.


Lá arrumamos um assento no que parecia ser um voo fretado só para velhinhos pigarrentos. Voamos até São Paulo e pensamos… “Puxa, vai ser a maior treta para desembarcar. A ANVISA deve estar maluca, triando todo mundo… E eu que queria comprar o meu uísque calma e feliz no Dutyfree… Tsc tsc tsc…”


Finalmente, desembarcamos.


Recebemos mais uma vez um panfleto. Dessa vez, em português. As orientações eram as mesmas. Lavar bem as mãos, cobrir a boca ao tossir, ok, ok. Entendido. Os velhinhos pigarrentos passaram incólumes. Ninguém os entrevistou. Nem a nós. Seguimos nossa caminhada em direção aos taxis. E duas horas depois, estávamos em casa.


Esperamos alguns dias para ver se alguma coisa acontecia. Alguma febre, alguma tosse, dor de cabeça. Mas, felizmente, nada. A vida voltou ao normal.


Alguns dias antes da OMS declarar a pandemia, havíamos reservado passagem e hotel para passarmos o feriado de 09 de julho em Buenos Aires.


E agora, uma pergunta não me sai da cabeça…


Turista pé frio…


Pega gripe?

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