CLÉU ARAÚJO
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Um italiano, uma ilha deserta

por: Cléo Araújo

15 JAN

2005

O Guy Richie é o marido da Madonna. Um dia, eles se conheceram. Num churrasco em Londres, na casa do Sting. Apaixonaram-se, adotaram a cabala e estão muitos felizes, pra sempre.

Eu não conheço o Sting. É bem pequena a chance dele me convidar para um churrasco na casa dele. E isso me deu insônia.

E afinal, quais são as cores e as coisas que nos mantêm acordados à noite, numa insônia sem fim? Alegria, felicidade, expectativa, ansiedade. E que tal todas elas juntas?

É assim, hoje à noite. Um filme besta, criticado, vencedor de prêmios como o anti-Oscar, o Framboesa, no qual ninguém mais, ninguém menos, do que ela, a senhora Guy Richie, é a protagonista. Esse filme me fez pensar.

Assim: um italiano, lindo e bronco como se deve ser, a leva (sem querer) pra uma ilha deserta, depois de uma caca qualquer que rola antes. E ela, que era uma socialite milionária, nojenta, estúpida, descobre a felicidade ali, com ele, comendo peixe cru.

É isso que eu quero. Um italiano numa ilha deserta. Onde não tem celular, não tem amanhã. Onde amanhã a única missão é pescar um peixe, fazer amor e ser feliz.

Como a gente consegue complicar a vida… É impressionante a habilidade. É tudo entre querer e poder. Porque os quereres e poderes nossos se confundem com os quereres e poderes de outra pessoa (e eu gosto de pensar em tudo isso com fundo musical, está virando vício).

Relações possíveis que se tornam relações virtuais, graças a uma tecnologia quase dispensável. Lá, na ilha deserta, isso não rola. Pro bem da Madonna.

Mas é claro que não. Não… A ilha daqui não tem nada de deserta. É habitada por demais, lotadérrima, insuportavelmente povoada. Não, não nesse mundo complicado.

E tudo que eu queria era estar lá, naquela ilha deserta com aquele italiano. Stupid Madonna, ela não tem a coragem que eu teria pra dizer pro mundo que era isso também o que ela queria. Pelo menos nesse filme.

Amor assim, na sua limpidez, só em filme do Guy Richie. Por incrível que isso possa soar. Entre porcos, diamantes e canos fumegantes existe também uma ilha deserta e um italiano apaixonado.

O filme é ruim? É. Mas quem se importa, quando as mensagens chegam e falam com a gente?

E assim a vida (besta e virtual) vai se perfazendo. Bem longe da ilha. E nos enchendo de expectativas, daquelas que não nos deixam dormir. Daquelas que não nos largam, esperando que em uma noite, senão com aquele italiano da Madonna, as coisas aconteçam, somehow.

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