CLÉU ARAÚJO
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Um mundo para chamar de meu

por: Cléo Araújo

24 OUT

2007

A verdade é que a gente não se cabe mais na Terra.

E uma rua continua sendo só uma rua.

Não adianta o cara do Corolla achar que ela é só dele. Não é. Lá tem um Fusca, um caminhão pipa, dois Pálios, um Fox, um Peugeot 206 e um carrinho de madeira de um coletador de papel. A rua não vai se abrir para ele, por mais que ele se ache o Moisés do trânsito de São Paulo. Não adianta ele acelerar, fazer que vai atravessar pela calçada, porque nela estão os taxistas, o moço e seu labrador preto, o jardineiro do prédio e eu.

Ele pode se fazer de fodão quando o sinal abrir? Pode. E vai. Vai sair cantando pneu e vai sumir no infinito, aquele lugar onde o diabo que lhe carregue! Mas o problema é que tudo isso que ele acaba de causar não é mais só problema dele. É de todo mundo. Porque ele faz do mundo um lugar muito mais apertado do que ele naturalmente já seria não fosse o fato de ele nele existir.

Existir em comum não é algo tão natural e inerente ao ser humano. Não é assim que a gente aprende? O homem é um ser social?

Mas eu saio e tenho que limpar o cocô do cachorro alheio para que minha cachorra possa passar sem embostear suas patas e eu os meus sapatos.

Eu não posso conviver em sociedade, na mesma quadra, do dono desse cachorro, posso?

Os balcões onde geralmente as pessoas aguardam a sua mesa no restaurante, por exemplo. Estão sendo insuficientes para acomodar toda essa fauna: um fumante, dois não fumantes, um pernudo, uma baixinha, um tigre (que mais parece estar num estádio de futebol) e duas patrícias. Posso eu, que fumo, me sentar nesse balcão, tomando uma cerveja, ou um vinho, ou um suco de tomate, que seja, num dia de santo lazer, sem incomodar as outras catorze pessoas que vão se incomodar com meu cigarro (com toda razão)? Posso, claro que posso. Porque opto por não fumar nesse lugar; daí, como posso me submeter a um Camel flamejante a dois centímetros da minha orelha? E essa moça-velha, que parece estar em casa? Puta merda, eu também estou me adaptando aqui para poder compartilhar o balcão com os diferentes, tá percebendo, madama? Mas ela não dá atenção para as caras feias. Fuma feito uma caipora e ainda fala alto e assopra a fumaça dentro do meu córtex cerebral.

Como é que dá, vocês, por favor, me digam, para participar de uma reunião de condomínio na qual um condômino deveras visionário julga ser uma obra de luxo o conserto de um vazamento na garagem que pode transformar as nossas áreas comuns em uma Veneza?

Como é que se faz para suportar o infeliz que está na sua frente em um restaurante fast food japonês e que quer trocar o recheio do guioza por ricota, quer tirar o tofu do missoshiro e exige que retirem a manga do Califórnia roll?

Me diga, você, caso já tenha transcendido a problemática da existência mundana e se transformado em um monge zen: como é que é possível aceitar um neandertal que atira pela janela de seu carro um saco plástico de supermercado?

Como é que dá para agüentar a super bronzeada que, sentada na cadeira do cabeleireiro, liga para casa noturna “Plutus” para colocar os super nomes de sua super galera na lista e que, quando desliga seu V3 Dolce & Gabanna faz cara de ânus e entoa “meu, eu não suporto essa galera, meu, vão arruinar a balada, meu”? Ela só deve saber usar a palavra “arruinar” porque ouviu o Pedro Bial falando isso em algum episódio do BBB!

Vai, por favor, me oriente, como é que a gente deve proceder num caso de emergência como esse???

Como??? Alguém me ilumine, por favor!

Monta-se uma expedição para descobrir um outro planeta ou um exército de extermínio para resolver as coisas por aqui mesmo?

Desiste-se de olhar para as pessoas como se todo mundo estivesse errado e você certo ou se aponta um cano na cabeça do infeliz que jogou a sacola pela janela do carro e gritando “vai, muleque, faz isso de novo, muleque, faz, que eu quero ver, faz de novo se for homem!”.

Mas eu não faço é nada.

Já tive meus tempos de engajamento. Liderei uma passeata para construção de uma praça na frente de casa, concorri ao grêmio do colégio. Fui presidente da chapa. Corria pelas salas com a minha equipe compartilhando propostas de “governo”: luta pela liberação do uso de tênis colorido, implantação de sinetas eletrônicas, excursão para o Playcenter, uso do laboratório a partir da 4ª série, organização de shows de talentos e música na hora do recreio (não só músicas de igreja, mas coisas como a trilha sonora da novela “O Outro”). Indispus-me com o presidente da chapa do 2º colegial, brigamos. Por isso, acompanhei a apuração, cédula por cédula. Perdi.

E aí, sei lá, passou.

Não pintei a cara no Impeachment.

Não fiz parte do DA nem do DCE na faculdade.

Faz cinco eleições que eu justifico o meu não-voto.

Prefiro pagar a taxa de lixo extinta a reclamar a sua validade.

Fico aqui, irritada, de mau humor com o mundo, inerte, apontando o dedo na cara de todo mundo como se fosse o máximo dos máximos.

Transformei-me em uma ex-engajada de mau humor.

E que ainda por cima é megalomaníaca.

Pois tem a audácia de achar que merece um mundo inteiro, só para chamar de seu.

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