CLÉU ARAÚJO
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Um mundo sem Castro Alves

por: Cléo Araújo

24 OUT

2006

Eu vivo num mundo sem magnetismo. Meio cinza, meio bege.

Um mundo sem Castro Alves.

Eu costumo colorir esse mundinho meio cinza, meio bege e sem Castro Alves com meu próprio giz, minha própria noção estética, e não posso reclamar, porque tem dado meio que certo. Estou gordinha, bochechuda, rosadinha, sadia. Estou bem. Equilibrada. Fico bem assim.

Assim tem sido fácil ser feliz. Com meus amores de irmão, com meus apetrechos de alegria, minha retórica dirigida ao espelho, o meu entorno, controlável e confortável entorno, absolutamente dominado, tá tudo realmente em cima. Eu venho me alegrando de mim e do que é meu. Eu gosto do meu mundinho assim.

Mas… Nada mais me atrai. Não tem ímã, não tem força nem oposto que faça eu me mover em direção ao que eu ainda não conheça nesta dimensão tão chocha.

Nada me dá vontade. Fato é que me dá até um pouco de asco, às vezes.

Mas o irritantemente contraditório é que eu ainda quero meu olho brilhando, meu coração em disparada ascendente, quero perder uma noite de sono de tanta saudade, quero morrer de vontade de tocar e de ser tocada.

Mas… Nada mais acontece. E eu simplesmente maldigo essa fenda espaço-tempo onde-quando ninguém me seduz.

Eu não sinto ímpeto de ‘outrar’, os cheiros não me atraem, as bocas não me excitam, as mãos não me prendem, os colos não me cabem.

Estou cansada, amargurada, estou me transformando em uma pessoa que eu não sou.

Eu me apaixonava de forma tão inconseqüente, a toda hora, em todo lugar, que raios, havia paixão sempre em iminência, onde é que foi se esconder toda gente que me interessa, que me concerne, que me afeta nesse mundo?

É como se tudo tivesse fenecido de vez.

Não há Casto Alves nesse mundo. Não há Pessoa, não há Guevara, não há Neruda, não há Vinícius.

Eu visualizo um mago, sinistro, de nariz aquilino, olhos amendoados, e uma voz com eco. Eu devo ter com ele um débito de uma vida passada. Provavelmente eu saí com ele e fugi depois, não atendi mais às suas ligações e aí ele me jogou uma praga, uma macumba, uma mandraca da forte. “Tu vai ser chata, filha! Ninguém vai te servir nessas vidas que vêm aí pela frente.”

E eu só posso concluir que essa praga tenha pegado, e que a conseqüência dela seja essa apatia amorosa.

Essa falta de gostar, de querer gostar, ou pior, de alguém conseguir fazer com que eu goste. Porque no fundo, no fundo, era isso que eu queria.

Ah, maldição de uma cabeça que exige, de um corpo que reclama, de uma pressa de fugir, rápido, depois do desconforto completo de um beijo com absoluta ausência de atração, quando o tempo não passa e você troca saliva tão à vontade quanto solta um pum num avião lotado.

Ah… Esse ninguém me agrada, esse mundo desinteressante, esse marasmo, essa sonolência amorosa, que me faz crer que isso tudo é uma conspiração cósmica e maléfica tão poderosa que, no dia em que deitar meus olhos sobre alguém que de fato me interesse, ele certamente será transformado em lobo e eu, em águia, em períodos alternados do dia.

Por isso, eu resolvi: comecei a me apaixonar por fantasmas.

E eu me apaixonei, recentemente, por Castro Alves.

Com Castro, não ia faltar química. “Ah! fora belo unidos em segredo,

Juntos, bem juntos… trêmulos de medo,

De quem entra no céu,

Desmanchar teus cabelos delirante,

Beijar teu colo!… Oh! vamos minha amante,

Abre-me o seio teu.”

Isso me consumiria por inteiro já na primeira estrofe.

E aí sim eu quereria ‘outrar’, aí sim os cheiros me atrairiam, a boca me excitaria, as mãos me prenderiam, o colo me caberia.

E enquanto eu me sinto a beira da loucura, e percebo que toca Rachmaninoff sobre um Tema de Paganini em meu Ipod interno, eu resolvo me trocar e ir à luta.

E caio no bar mais playba da cidade.

Maldigo os que vivem e bendigo os que já se foram, me deixando aqui, com a antropófoba missão de conquistar gente oca, nesse mundo vazio.

Mago maldito!

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