CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Um mundo sem “quick drop”

por: Cléo Araújo

19 NOV

2008

Foi na matinê. E chovia.
No hall de entrada, o piso quadriculado preto e branco e um cheirinho que misturava cera, cigarro e bala Sete Belo.
Era outro tempo. Usava-se a enceradeira e fumava-se nas salas de cinema.
Não havia pipoca – embora o tio do carrinho ficasse estacionado do lado de fora aguardando a saída esfomeada da sessão.
A moda em voga eram os assobios no papel de bala.
E o desafio era vencer, no escuro, a pesada cortina de veludo vinho, que isolava a sala de projeção do resto mundo.
Naquela primeira vez, eu me lembro que desci pelos largos degraus à meia luz até chegar às fileiras do meio, com um medo meio grande de perder meus pais para sempre. Mas deu tudo certo. Ali, na cadeira de encosto de madeira e acento retrátil de couro azul com friso branco, eu me acomodei feliz.
Na terceira mastigada da primeira bala, as luzes começaram a diminuir, diminuir, até que tudo ficasse escuro por completo e os assobios ouriçados prenunciassem o início de algo que só poderia ser muito bom.
Foi assim que eu conheci “E.T.”.  E chorei no escurinho pela primeira vez.
Mas essa foi só a primeira das incontáveis emoções que eu viveria ali, no velho e saudoso Cine Peduti.
Teve “Ghost – Do outro lado da vida”, “Dirty Dancing – Ritmo quente”, “Polteirgeist – O fenômeno” e muitos outros filmes com títulos em inglês hífen subtítulo em português que povoaram as telas de cinema no final da década de 80, começo da de 90.
Um dia, como em toda relação, as coisas começaram a mudar. O pitoresco Peduti se enfiou em um shopping e deixou para sua antiga morada a incumbência dos filmes proibidos. Os desenhos estampados na parede da calçada ainda anunciavam o que rolava lá dentro, mas ao invés de um Daniel San torto ou de um Rei Salomão que parecia mais o Dedé Santana do que o Richard Chamberlain, jazia uma mulher de cabelo oxigenado e seios a mostra que se oferecia sedutora para um encanador em roupas de couro preto.
A fase do cinema no shopping trouxe algumas novidades. Whoopi Goldberg – A Freira, Anthony Hopkins – O Canibal, Tom Cruise – O Vampiro, Brad Pitt – A Morte e Leonardo DiCaprio – O Afundado, que por tantas e tantas vezes submergiu em águas gélidas no Atlântico Norte. E tudo isso aconteceu diante do meu gigantesco pote de pipoca amanteigada.
Já na metrópole, descobri que havia cinemas por todos os lados, em todos os lugares, acessíveis a qualquer hora do dia. Fui, então, à forra. Em cores, em preto e branco, em filmes antigos, em lançamentos inéditos, na Rua Augusta, na Avenida Paulista e na Alameda Santos. Assisti à revolução de “Matrix”, me deliciei com as “Invasões Bárbaras”, me emocionei com “Rocco e seus irmãos” e me narcotizei com Marcel Proust. O cinema era eclético, soberbo, exagerado, cult.
Um dia, eu tive preguiça.
Depois de duas horas gastas no trânsito, ir até o cinema se transformou em uma coisa que dava muito trabalho. Só fazia visitas quando uma razão mais forte – algo no nível de “O filho da noiva” ou “21 Gramas” – me obrigava a ser uma das primeiras da fila.
Os meus trinta anos se aproximavam, e com a idade veio uma ranzinzisse que revelou que o meu problema era que eu não conseguia mais compartilhar um filme com toda aquela gente desconhecida.
Comecei a achar que ficava mais fácil buscar o cinema em outro lugar.
Era a vez da Blockbuster – A Onipresente…
Sem fila, sem chatos, sem pagar estacionamento e com a mesma pipoca amanteigada de outrora, estourada no conforto do meu lar.
E por um tempo, eu fui feliz no meu sofá.
Até o dia em que as Lojas invadiram tudo. Deixaram as caixinhas dos filmes (aquelas que, fadadas à extinção, parecem não merecer nada além de um canto) espremidas umas contra as outras, perdidas entre ovos de páscoa, cartuchos de impressora e farnéis de cola bastão. Naquele mundo já tão sem identidade, eu não me reconheci. Não sabia mais para onde ir, o que levar, muito menos quando trazer de volta. Vieram as multas. E eles não tinham “Piaf”.
Foi aí que voltei ao passado, e àquela matinê com “E.T.”.
Me dei conta de que o Peduti, desde à sua transformação em cinema erótico, já havia passado por igreja, barracão, fábrica de silkscreen e que hoje, coitado, é só um estacionamento cinza escuro.
Fiquei sócia de uma locadora de DVDs virtual.
E estou pagando 39,90 por mês só pra ver como essa história vai terminar.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.