CLÉU ARAÚJO
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Um roteiro para Freud

por: Cléo Araújo

04 JUL

2006

Cena 1. Loja de cosméticos. Uma mulher entra e encontra uma pessoa da sua cidade natal: um homem com quem não tem nenhuma intimidade, e com quem só conversa amenidades. Ele tem a barba por fazer e veste um moletom vermelho esgarçado na gola, o que não combina com a imagem que ela tinha dele. Conversam só um pouco e logo se despedem. Ela sai da loja. Um velhinho corcunda a aborda na saída. Enfia a mão no bolso e retira dele duas castanhas de amendoim torrados, que ele lhe oferece. Antes que ela os alcance, um deles cai no chão e o árbitro apita, gritando: Faaaalta!

Cena 2. Teatro escuro e vazio. No palco, cerca de 30 homens fantasiados de pelicano entram saltitantes ao som de Burt Bacharah. Um casulo gigante feito de um material que lembra uma rede de gol no futebol desce do teto. A música pára, a luz se acende, e um árabe sobre um camelo surge de dentro do casulo. Sai cavalgando pela platéia do teatro, seguido pelos pelicanos. Uma mulher apenas observa tudo da coxia, fumando um narguilé. Ela de repente é abordada por Luis Figo, que estava disfarçado de árabe, e que agora veste uma túnica cor de vinho e mais nada. Ele a agarra nos braços, a arremessa no chão e cobre-a de beijos selvagens e ensandecidos. Fecha a cortina.

Cena 3. Pasto. Vaquinhas holandesas comem capim sob o céu azul. Uma aeronave do tipo Mirage de repente cruza os ares, com um barulho ensurdecedor. Uma mulher salta de um pára-quedas alaranjado ao som de uma trilha eletrizante. Corre então pelo pasto, até encontrar um balão, preparado para decolagem, onde se podem ler as letras: V-A-R-I-G. Ela sobe no balão, onde Juninho Pernambucano a aguarda com uma garrafa de champagne. Arremessam os sacos de areia e o balão sai voando. Mas o balão sempre acaba voltando para o pasto, onde eles percebem que terão de viver pelo resto de suas vidas.

Cena 4. Taberna do século XVIII. Homens barbudos bebem vinho em canecas de madeira. Uma mulher surge na porta vestida de mulher gato. Ryan Seacrest aparece no meio dos homens barbudos, momento em que grita “Thiiis is American Idooool”. A mulher gato, então, sai correndo, se pendura em um lustre da taberna e sai voando pela janela, cantando Celine Dion. Da janela, ela cai certeira sobre um cavalo, onde Cristiano Ronaldo a aguarda. Saem cavalgando, em direção à lua.

Cena 5. Campo de futebol. Nele, um ringue de boxe. Dentro do ringue, Galvão Bueno num córner, Ronaldo no outro. Ao som do gongo, surge o espírito do Senhor Miague, antes que os dois combatentes se desafiem. A luta termina em zero a zero, como mostra o placar luminoso do estádio vazio. Uma mulher aparece com um chapéu verde e amarelo, um pastor-alemão na coleira em uma das mãos, uma raquete de tênis na outra, cantando a Marselhesa.

Cena 6 (Final). Shopping Center. Uma mulher foge de policiais que a perseguem por ter sido acusada de roubar amendoins mágicos de um velhinho inocente. Um ex-piloto da Varig e recém desempregado, vestido em um moletom vermelho esgarçado, dá cobertura a ela, permitindo que adentre um auditório vazio. Mas é apenas um portal. A mulher, então, come um dos amendoins mágicos e roubados, e se transforma em uma pomba da paz que cuja missão é voar pelo mundo discursando contra o racismo mundial em vários idiomas. Mas um dia ela volta ao Brasil, sua terra natal, pois dez cilindros de um produto químico que dá cheiro ao gás de cozinha foram roubados por alienígenas terroristas e eles ameaçam atirá-los no Rio Pinheiros. Ela aterrissa, come mais um amendoim e volta a ser uma mulher. Uma narradora póstuma fecha o pensamento, e deixa o mistério no ar, para ser resolvido só na próxima temporada. Entra o letreiro. E toca o despertador.

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