CLÉU ARAÚJO
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Uma cabeça vazia

por: Cléo Araújo

04 DEZ

2006

Eu não suporto cama com espelho na frente.

Ainda mais assim, estilo academia de ginástica.

Mas me disseram que a rainha da Inglaterra já ficou aqui.

Deveria ser um puta hotel, lá em meados da década de 1950.

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Hoje eu dava uma palestra e reparava na platéia.

Tinha um figura mascando um palito. Sentado de pernas abertas, tipo em um boteco. Apostei que ia coçar o saco a qualquer piscadela. Mas desviei os olhos antes de ver essa cena dantesca…

Lá, mais ao fundo, uma moça se maquiava. Isso, num auditório onde pessoas proferiam discursos.

E foi coisa completa. Reparei que usou até delineador, habilidade realmente impressionante.

Aí, depois de tudo, vi um velhinho de terno mostarda fumando um cachimbo e mascando chiclete ao mesmo tempo.

Ele fez uma bola.

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O quarto não tem um carpete onde se dê segurança para pisar com os pés descalços. Loucura minha, mas estou circulando de camisola e salto porque esqueci minhas havaianas.

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O ano está acabando.

O meu ano resolveu começar.

Descobri que meu ascendente é Sagitário e que eu tenho a lua em Câncer.

Aliás, leram o meu mapa astral para mim, em voz alta, pelo telefone, mas de um jeito tão sexy que ele acabou ficando até mais interessante… “Mercúrio vai atravessar a casa 1 entre hoje e o dia 15”. Uuuu! Nunca pensei que acharia essa frase erótica… Nunca imaginei que “Mercúrio atravessando a casa 1″ pudesse se transformar em algo sensual, em algum nível…

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O espelho continua me encarando e eu estou com cara de acabada. Acho que é por isso que não dá para ter espelho na frente da cama.

Preciso escrever um texto com a palavra “hipótese” e a única coisa que me vêm à cabeça são trocadilhos infames com o prefixo “hipo”:

Hipo-pótamo

Hipo-condríaco

Hipo-alergênico

Hipó-dromo

Hipó-tese

Aliás, me faltam teses hoje…

Estou hipo-acompanhada. Hipo-esperançosa. Hipo-criativa.

Vou dormir.

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Tem um girassol de plástico na frente do espelho que eu odeio.

O girassol de plástico me faz lembrar de uma outra coisa.

Uma coisa boa.

Minha noite acaba sendo semi-salva por um girassol de plástico.

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Meu ano está começando, como eu já pensei logo acima. Preciso de tempo e calma para vivê-lo.

Não quero pedir omelete no serviço de quarto.

Acho que vou comer castanha.

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Fiquei na janela olhando as ruas lá embaixo. Lembrei-me de Bill Murray, em Tóquio.

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Eu gosto muita da poltrona 4F no Air Bus 320.

Tem um monte de gente que faz aniversário hoje.

Todo mundo que faz aniversário hoje é inteligente.

Todo mundo que é de junho se parece comigo de alguma maneira.

Mas eu tenho ascendente em Sagitário. Lua em Câncer.

E meu mapa astral disse que eu estarei atraente nos próximos dias.

Antes preciso voltar para São Paulo, me livrar dessa olheira.

Pedi um cheeseburguer.

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Puxa, eu queria tanto rir com alguém agora.

Estou me sentindo tão sozinha.

Fazia muito tempo que eu não sentia essa solidão dolorida.

Solidão de hotel.

Estou com vontade de dar risada.

Acabo de perceber que estou em um daqueles quartos conjugados.

Que aflição.

E certamente o quarto ao lado não está ocupado pelo príncipe William.

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Hoje eu mandei um beijo para o porteiro pelo interfone. “Oi, Reginaldo, o lixeiro já passou?” “Já passou, sim senhora” “Obrigada, Reginaldo, um beijo”

Beijo para o porteiro é sinal de estresse.

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Acabo de receber uma mensagem. Terei que voltar para cá em quinze dias… Será que eles me arrumam um hotel onde a rainha da Inglaterra não tenha ficado?

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