CLÉU ARAÚJO
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Uma eu materialista

por: Cléo Araújo

28 SET

2006

Ela precisa de tão pouco para ser feliz. Contenta-se com um pedaço de jornal rasgado, uma abelha de borracha cor-de-rosa e um cobertorzinho de soft. Alimenta-se de bolinhas secas de arroz com frango, água de torneira e de vez em quando um pouco de leite e um ossinho sintético meio fedido. Banha-se com lenços umedecidos. Agradece com uma expressão de eterna gratidão a carinhos tolos, tais como um afago no pescoço, um colo meio torto ou uma limpada nos olhinhos, um tanto remelentos, verdade seja dita.

Mas ela é feliz assim. Parece feliz. Dorme a noite toda, sem interrupção. Sua maior ambição é sair para passear no quarteirão de casa. Ela parece tão bem, nem de intestino preso ela sofre, mesmo sendo uma mocinha.

Já eu, não. Sempre falta alguma coisa. Falta uma coisinha, falta uma coisona, mas uma coisa sempre falta. Faltava ela, por exemplo. Aliás, até pouco tempo atrás, ela era só o que estava faltando. Ela chegou, e eu já arrumei outras coisas para não ter.

Falta o piso de cerâmica brennand. Falta um carro com porta-malas de 550 litros. Falta tempo para fazer exercícios físicos, ir ao dermatologista e comprar uma caixinha para as correspondências. Falta uma parede verde, faltam cortinas, falta uma janela no meu banheiro. Falta um curso para eu fazer fora do Brasil, falta eu falar francês, falta uma coleira de strass para quem nem sequer faz questão dela. Falta fazer um curso de degustação de azeite, falta um CD do Tom York, falta um Ipod, um limpa-alumínio, um iluminador para os olhos. Falta uma saia preta. Falta tomar um sol, faltam três meses para o fim do ano.

Falta uma paixão que me faça explodir, um gravador de DVD, uma luminária, um beijo bem dado, um outro carpete de madeira para o meu quarto, um cara com uma pegada de cinema. Faltam as férias de verão, falta uma casa no campo, uma casa na praia, uma vaga de garagem, um texto publicado em uma revista bacana. Falta um amigo, uma companhia para viajar para longe, para viajar para perto.

E aí, eu olho para ela… Bebê… E sua boquinha está suja de leite. Eu me sinto ridícula. Eu jogo a abelha para ela brincar, ela traz para mim. Estaria sorrindo?

E agora é assim que fica tudo bem.

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