CLÉU ARAÚJO
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Uma visita ao nosso museu pessoal

por: Cléo Araújo

15 FEV

2005

Situação: roda de amigos, de parentes, de conhecidos, regulando todos mais ou menos na mesma faixa etária. Local: 1. Cidade natal do grupo, 2. Festinha de encontro de turma, 3. Casamento de alguém da turma, 4. Bebedeirazinha despretensiosa com amigos. Contexto: Faz tempo que as pessoas envolvidas não se vêem. Viveram, juntas, fases e momentos saudosos e, por que não, áureos, no passado. Desfecho: depois de 20 minutos de prosa (se é que leva tudo isso) eis que ela é dita, a frase “Nooossa, ‘cê lembra….?”

“Cê lembra quando a gente ia pular carnaval no clube?”
“Cê lembra daquele fulaninho estranho que fazia inglês com a gente?”
“Cê lembra daquele penteado que a gente teve que fazer para a apresentação de dança no teatro?”
“Cê lembra do pogobol?”
“Cê lembra como nossa mãe regulava o dinheiro pra gente comprar o elástico pra pular na hora do recreio (sim, recreio: nessa hora ninguém fala intervalo porque a palavra ‘recreio’ remete a todo um cenário, a um cheiro e a uma atmosfera capazes de colocar os interlocutores no clima ).

Quando isso acontece, sempre tem gente que se lembra melhor das histórias com os detalhes. Essas pessoas ou são muito boas de memória ou são aquelas que registravam as histórias num diário ou em um agenda gorda e nojenta. Meninas, em sua maioria, é claro. Hábito que desde as inscrições nas paredes das cavernas, passando pelos escribas, historiadores e descobridores, acomete essas figurinhas e as fazem registrar a história da célula social onde todos os seus amigos, parentes e conhecidos estão inseridos. A visão desse peculiar historiador geralmente é unilateral e egoísta, mas não impede que muitos fatos, quando desadjetivados, estejam ali, como história registrada, como uma bíblia de sua infância e adolescência.

Diários e agendas são verdadeiros museus. Os sobreviventes, é claro, pois a maioria das mães já fez o favor de despachar as nojentinhas para bem longe – juntavam mofo e formiga porque continham papel de bala e de chocolate guardado dentro. Para as poucas que sobreviveram à ‘limpança’ das mães, esses museusinhos de pulgas (literalmente) são espaços para longas visitas: textos curtos, textos longos, pensamentos, diferentes tipos de fontes de letras, fotos, artes plásticas, desenhos, caricaturas, letras de músicas da época, nomes de garotos, poemas, maldades, bondades. Até o cheirinho delas parece nos remeter a um determinado momento de nossa vida, numa viagem ao passado. São episódios da vida que nos fazem refletir sobre o que éramos e o que somos – isso às vezes nos dá sustos, nos deixa meio envergonhados. De hoje, é claro.

Visitei meu museu pessoal na última viagem exploratória às minhas gavetas e armários. Lá, jaziam como anciões manuscritos e anotações os momentos que estão na minha mente, mas que sem o registro ficariam nublados. O livro-museu faz rir e chorar. Rir dos dramalhões, das meninas que você xingava de galinhas – praticamente todas que você conhecia, com exceção de sua mãe, irmã, avós e daquelas 3 ou 4 amigas que rodiziavam no seu top five da amizade. Chorar das saudades que tudo deixa e principalmente, daquilo que você sente falta acima de tudo: de você!

É como se a possibilidade de viajar no tempo sofresse em nossos sonhos uma incrível contradição. Adolescentes, tudo que queremos é uma máquina que nos leve para o futuro, quando seremos independentes, teremos carteira de motorista, não teremos espinhas nem cambitos, teremos peitões e faremos faculdade. Adultos, queremos o inverso: voltar ao passado e viver tudo de novo, poder estar de novo no colegial, ter aula de química e de física, ter que andar de bicicleta para chegar aos lugares e ter de novo aqueles cambitinhos finos que odiávamos tanto, e que hoje foram substituídos por umas coxinhas grossas e algumas celulites.

Todo um mundo e toda uma história que não voltam mais. Queria voltar para ela de bicicleta, segurando um churros de doce de leite com uma mão e minha Barbie na outra. Queria ser eu, com 14 anos, ou estar ao meu lado, com 14 anos. Mais corajosa, sentimentos tão mais intensos. Nós éramos mais intensas! Quando gostávamos de alguém, GOSTÁVAMOS. Quando queríamos alguma coisa, QUERÍAMOS. Queria pedir conselhos para mim mesma com 14 anos. Seria uma ótima conselheira, teria altas dicas para mim mesma. Saberia agir diante de situações que hoje nem sequer acontecem em minha vida. Fazíamos mais coisas, tínhamos mais amigos de verdade, tínhamos mais perto os cólos dos nossos pais, vivíamos mais emoções, sonhávamos mais. Sabíamos como alcançar nossos objetivos, mesmo que não soubéssemos exatamente quais eram.

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