CLÉU ARAÚJO
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Vivendo e aprendendo a boiar

por: Cléo Araújo

16 NOV

2006

Não espere de mim uma lição de vida.

Eu nunca troquei um pneu.

A minha história é essa aqui, um vai-e-vem de projetos, alguns realizados, outros não, um começo e fim de relacionamentos, uns longos, outros curtos, um prefácio e um epílogo de momentos, uns intensos, outros pífios.

Eu não sou uma empreendedora de fazer inveja, eu não arrisquei muitas coisas, eu simplesmente me joguei em algumas, caí sem querer em outras, e só.

Eu ainda não fiquei grávida, não sumi no mundo, não fui famosa, não sou uma ex-prostituta com histórias adoravelmente sórdidas para contar.

Eu continuo com todas as dúvidas possíveis sobre os homens… Ah, esses seres, tidos como tão acurados, e no fundo tão mais complexos do que as mulheres, essas, que se acham tão emaranhadas.

Eu não tenho nada a dizer a ninguém sobre o segredo das coisas bem sucedidas. Até me considero como tal em alguns âmbitos da minha existência, é só que falta muito para eu me semi-completar.

Eu não sei o que dizer em algumas situações. E em outras, eu absolutamente preferiria não ouvir, mesmo que estivesse escutando tudo, em alto e bom som.

Sou péssima leitora de entrelinhas, ainda que goste de ficar escarafunchando almas, buscando por algo que eu julgue escondido. Não falo nas entrelinhas, acho por demais arriscado imaginar que eu, ao querer dizer alguma coisa, possa acabar dizendo outra.

Nunca limpei uma fralda, embora imagine que seja capaz de cuidar de um bebê. Eu nunca tive aves, não sei cuidar de gatos, nunca dei cambalhota na grama.

Nunca me senti a mais querida, a mais amada, nunca fui aquela por quem alguém se descabelou de amor ensandecido, nunca fui aquela, interrompida na sala de embarque do aeroporto. Mas já me descabelei de paixão, já quis me atirar na frente de um avião para fazer alguém ficar, já me vi, tantas vezes, envelhecendo ao lado de pessoas que hoje nem existem mais, mesmo que algumas eu tenha visto recentemente, circulando por aí em meio às suas insuspeitas inexistências.

Intimidade, para mim, é uma coisa misteriosa, quase desconhecida. Até de mim, às vezes, eu me sinto muito pouco íntima. Acho que por isso quero mais experimentar um pouco dela do que quero um cabelo liso.

Eu me cobro, me julgo, me exijo. E quando me olho, me vejo essa, cheia de irritantes imperfeições. Aí é onde eu me embaraço – sinto que busco, no escuro, ser uma versão melhor de mim mesma; num átimo, percebo que nem sei bem ao certo onde é que posso, quero ou consegui chegar com essa maniazinha meio idiota.

Quero realizar muito, não sei quanto do que faço está me levando para esse fim. Tenho medo de tudo o que se faz tão rapidamente especial, e que, tão rapidamente quanto, se esvai pelos dedos, deixando buracos na alma, desses, que terra nenhuma dá conta de cobrir.

Sinto-me, por vezes, ludibriada pelas circunstâncias, e eu odeio me enganar sobre as coisas. Mas nunca acho que fui enganada por alguém, opto sempre pela posição de culpada dos enganos ocorridos comigo mesma.

Tenho uma tendência a sempre querer estar certa. Dificilmente me sinto assim.

Costumo livrar o alheio pela mágoa deixada em mim, de um jeito que fica sempre parecendo que a tal mágoa sempre morou ali e o outro, inocentemente, só fez me lembrar disso.

Eu confio, na maior parte das vezes, em coisas que se apresentam só como luz brilhante diante dos meus olhos. E não deveria? Talvez não, já que luz que é luz dificilmente a gente consegue segurar com as mãos, apertar contra o peito e guardar para sempre numa caixinha.

Eu fico sempre assim, nadando, sincronizando os movimentos das minhas pernas e braços sobre a água às vezes calma, outras vezes, turbulenta. Procuro respirar no tempo certo, para controlar o fôlego, nadar mais longe… Mas não vejo terra, é como se a próxima praia estivesse sempre além, provavelmente pra lá da linha do horizonte, pra lá do fim do mundo.

E eu só queria uma, de areia quentinha e do tipo que serve para fechar os tais buracos da alma, céu azul e objetos que me permitissem construir uma cabana confortável. Um lugar onde eu pudesse aportar. Não, mais do que isso, um lugar que me reivindicasse aportada.

E é por isso tudo que eu acho que essa pessoa, que eu chamo de “eu”, precisa definitivamente aprender como é que se bóia nessa vida.

Eu não sei boiar. Bóio um pouco, mas bóio mal, bóio tensa.

Talvez assim, boiando ao sabor das ondas e com um pouco de ajuda de um ventinho amigo, eu, crente, tola, exigente e cheia de irritantes imperfeições, finalmente chegue lá.

E aí eu seria recompensada, não só pelas horas boiadas, mas por todas as outras que nadei, incansavelmente.

Lá me esperaria alguém que me quisesse e me fizesse íntima.

Tanto dele quanto de mim mesma.

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