CLÉU ARAÚJO
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Você, que é um pouco de mim

por: Cléo Araújo

30 JUN

2005

Esse texto é para você. E é sobre você, ainda que seja quase que inteiramente sobre mim. Não, não tente localizar fatos familiares, mensagens subliminares que deixem claro que é sim, sobre e para você. Você provavelmente não vai encontrá-las. Isso tudo já foi dito, de um jeito ou de outro, antes mesmo de ter sido colocado em um texto.

Precisava dizer que cansei de dar conselhos. A verdade é que eu nem sei dar conselhos. Na próxima vez em que eu involuntariamente me virar para você com um conselho iminente, cubra meus lábios. Faça seus os meus conselhos, tire-os da minha boca e os dê você para mim. Eu preciso deles.

Você, que me inspira simplesmente por ser, por favor, troque de lugar comigo uma vez. Saiba que eu não sou a mulher perfeita, sem lugares para dor e sentimentos mundanos. Os tenho todos, em grande medida. Eles só estão bem escondidos. Não me inspire mais só por ser você. Sempre que me inspirar, tente me expirar também, para que eu busque outros ares, outras inspirações, de pessoas que me façam parte de suas vidas e que me transformem em mistura química perfeita dentro de seus pulmões.

Não, eu não acho que pedi demais pela sua companhia. O que queria era a companhia de mim mesma quando estava com você. Por isso você fez falta, por isso eu chorei. Eu me perdi quando perdi você. Você me perdeu, para sempre, quando não soube entender o que era bom em mim. E por isso eu não te quis mais, a partir do momento em que percebi que você não se achou em mim. E tudo ficou para trás. Como algo que sequer existiu.

Você foi aquela história que passou muito perto de ser real. E que por isso me fez viver em fantasia. Se um dia eu estiver com você de novo como naquela tarde, não vou perder tempo em ser alguém que imaginei ser agradável ao seu olhar. Vou ser eu mesma, vou olhar nos seus olhos, vou ter certeza de que você já me conhecia muito antes de me conhecer, vou puxá-lo para me aconchegar perto do seu tronco, vou aceitar o conforto dos seus braços, que me darão a sensação de um carinho seguro. Vou manter meus olhos fechados, vou ouvir o suspiro da sua respiração chegando perto e vou deixar que nossos lábios se toquem. Pelo menos uma vez.

Você, tão idealizado, tantas vezes culpado, foi muitas vezes vítima do que eu quis que fosse. Você, quantas vezes cego e quantas vezes insensível para saber em mim o que eu achava saber em você, foi tantas vezes raso, tantas vezes menos, tantas vezes além. Você, muitas vezes parte de mim, tantas outras simplesmente ausência.

Isso tudo é para você. Isso tudo é um pouco do que eu sei em mim sobre você. Você, que nem sabe que foi. Você, que nem sabe que é.

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